quinta-feira, 1 de novembro de 2012

A DONA DA CAMÉLIA - Parte um




"O indício mais seguro de se ter nascido com grandes qualidades é ter nascido sem inveja". (François La Rochefoucauld)

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Vive atordoada por um sentimento que lhe corrói a alma, feito britadeira que machuca o asfalto. Tem de tudo, mora de frente para o mar, apartamento no qual caberia o Maracanã velho de guerra no meio do salão. Dorme em lençóis da descendência da dona Maricy, sai na lista telefônica da Lourdes, frequenta o Country ali pertinho, é chamada para todas as festas e desfiles de moda. Mas a inveja lhe come os miolos mesmo agora, quando a geladeira está repleta de garrafas de champanhe Cristal loucas para explodir.

Sempre fora assim. Menina cheirando a talco que mãe emplastrava na pele para conter brotoejas, foi capaz de envenenar o cachorro da melhor amiga do primário, vizinha na periferia de Minas, só porque o seu era vira-lata, e o sedado, um poodle. O bicho não morreu, por obra e graça do veterinário doutor Malaquias, que não cobrava consulta, amava mais os bichanos que a si.

Outro fato ao qual o hipocampo de sua cinzenta jamais conseguiu dar ordem de despejo é o do dia em que, Zippo lascado do pai à mão, ateou fogo no vestido de debutante da “melhor amiga”, esta com aspas, só porque era novo, sendo que o seu já visitara outros três bailes iguais, adornando ora uma prima, ora a filha da Bá, a negra feliz que ajudava criar os pequenos da família. Era o mesmo vestido, a mesma renda adamascada. Só as fitas acetinadas das mangas e decote iam sendo trocadas, conforme pedisse a ocasião. Para tanto, eram anotadas no caderno do seu Adalmir, armarinho de esquina nas paragens alterosas.  

Ao chegar ao Rio de Janeiro, ansiando por ganhar a vida e determinada a sair na coluna do Ibrahim, logo conheceu a melhor amiga da idade adulta. É daquelas que precisam de uma “melhor amiga” em todas as fases da vida, e chamam de “querido” qualquer ser com o que a oferecer, além de degraus a roubar. Colega do Santo Inácio, filha de família tradicional carioca, Bárbara era a chave da qual precisava para abrir as portas do mundo encantado do Country Club, o de Ipanema, porque há outros menos votados mundo afora. 

Com Bárbara, logo apelidada Babinha, conheceu a serra e o Quitandinha, Babinha também a levava aos desfiles da Canadá. Na casa da Bárbara viu, pela primeira vez, "talheres de ouro” na noite de Natal. Jamais ouvira falar em vermeil, a prata dourada, e pensava também que Limoges fosse apenas a cidade francesa onde nascera Renoir - desconhecia a grife da porcelana mais famosa dos ricos pós século XIX.

Quando Bárbara voltou de Paris com a mãe e a notícia de que havia conhecido Orlando Guimarães, da abastada família paulistana, por quem estava apaixonada e com quem iria se casar, internamente ela murchou como rosa há dias sem água na jarra do hall do elevador. A ponto de a amiga perguntar o que havia acontecido, tendo devolvido um “nada, não” com o sorriso sem graça de canto de boca, próprio de quem segue a vida querendo pra si os dias de glória do outro, neste caso, da outra.

O namoro, noivado e casamento de Bárbara e Orlando foram o “potin da saison”, como diziam os colunistas sociais. Belos, ricos, bem nascidos, bronzeados, legítimos representantes da jeunesse dorée, ela da cesta de "cocadinhas" do Turco, o casal sempre entremeava, em fotos, as notícias do Ibraim, do Jacinto de Thormes e da recém-estreada d'O Globo, Nina Chavs, que tanto viria causar boas sensações na grã-finesse carioca décadas à frente.

Enquanto Bárbara e Orlando, já adultos e recém-casados, eram a sensação do eixo Country-Morumbi-Petrópolis, ela prosseguia sua vida insípida de esteticista de um salão de Copacabana, bem relacionada, sim, mas contando os tostões para o dia seguinte, sem telefone em casa, a usar o orelhão.

Cansada de ser coadjuvante, na manhã chuvosa daquele outono de 1970, abriu a janela, ouviu a zoeira da Barata Ribeiro, e prometeu-se ganhar o Orlando de presente de Natal.

A eterna felicidade da Babinha que já se apressasse a contar seus dias.

(No próximo capítulo: e a camélia falava...

(Ilustração: pintura de Antônio Veronese)