segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

A DONA DA CAMÉLIA - Parte final


Orlando nunca fora chegado a guardanapos na cabeça. Honesto, querido por todos e filho único, herdou um império do pai, que, por coincidência, também filho único e herdeiro (do Barão de Negromonte, seu bisavô), amontoou riquezas alicerçadas na siderurgia e na construção civil, fortuna capaz de sustentar 10 gerações dos Guimarães em altos patamares por um século ou mais sem trabalhar.

Ainda que não precisasse labutar, e fosse um pouco relapso com horários - não dispensava uma partida de tênis todos os dias de manhã, no Country -, Orlando era um patrão generoso e pragmático. E mantinha no escritório, alto de uma torre na Paulista, seu melhor amigo Timóteo, o Tim, filho da querida Tereza (a negra que o embalou em pergaminhos desde os cueiros), como CEO de sua holding. Tim formou-se em Harvard, acarinhado financeira e emocionalmente pelos Guimarães desde que nascera.

Galanteador e amante irrepreensível, a ponto de dar a uma de suas mulheres filiais um apartamento na Rua 34, nas paragens da Broadway, Orlando nunca fora ruim como marido. Admirava e honrava, na medida do possível, a matriz Babinha com toda dedicação, material e afetivamente. Ele estranhou quando, naquela manhã de quarta-feira, José, o animado faz-tudo do Country, interrompeu suas sacadas, telefone celular em punho gritando urgência. Do outro lado da linha, ela, nossa personagem principal, a dona da camélia, dizia desejar encontrá-lo “ainda hoje”, tendo ouvido do Orlando um convite a aparecer no clube. Foi definitiva. Precisava ser “hoje em São Paulo”, onde já estava àquela hora. E completou, batendo o telefone: “a Babinha está te traindo”.

A hipótese de traição não é aceita por homem algum. Até Judas, o discípulo, sucumbiu à forca ao perceber ter sido traído por sua índole má. Orlando, amante inveterado, jamais imaginara a possibilidade de Babinha precisar buscar outra cama fora de casa. “Não, isso é mentira, só pode ser” - pensava, atordoado, ao tempo em que dava o jogo de tênis por encerrado.

Ao andar de volta pra casa, na calçada interna da Vieira Souto, manhã de sol acachapante, olhava para a direita, não via o mar, à esquerda, tudo era branco, um misto de ira e remorso, um pouco de tudo, um monte de coisa alguma. Culpava-se. Bem merecia ser traído, incontáveis eram suas amantes. “Mas sou homem, eu posso” - aquiescia, machística e estupidamente. Travava batalhas por bilhões de reais a cada dia no escritório, mas nenhuma perda, de qualquer contrato, fisgara-lhe tão fundo o coração como a lança atirada por telefone pela “melhor amiga” de sua mulher.

Nunca o elevador da portaria até o 10º andar demorara tanto como naquela manhã. Sequer o Victor, porteiro desde antes do término da edificação do prédio construído pelos Guimarães, pois fora ajudante de pedreiro e cativara a atenção do patrão, teve seu sorriso ao abrir a porta de blindex, pintada cor-de-mel pelo filme de proteção. Olhava cada detalhe de capricho do apartamento, do hall de entrada ao corredor de acesso à ala íntima, e ao mesmo tempo odiava e admirava a mulher exuberante e alinhada que a vida lhe dera de presente. Precisava ter calma, aquela víbora que plantara há pouco a adversidade em seu coração só poderia estar mentindo.

Apaixonava-se ainda mais por Babinha, todos os dias, quando se sentava à mesa para o café da manhã. Tudo deixava transparecer grande e caprichado amor. Flores frescas dentro de copinhos e garrafas minúsculas, toalhas da Ilha da Madeira, como um café da manhã de lugares marcados em casa de uma grande dama da sociedade, brisa suave a romper a janela coberta de branco voal, pães quentinhos feitos em casa e tanto afeto, e lhe era custoso acreditar que aquela rainha com quem dividia a vida fosse a traidora delatada pela “melhor amiga” e confidente. E Babinha estava particularmente bonita aquele dia, a bordo de um caftan turquesa da recém-lançada coleção de roupas íntimas do Jerson Karl, o maior costureiro do Brasil de todos os tempos, desde antes e depois da edição da Bíblia.

Esforçava-se por não deixar transparecer para a mulher seu misto de ira, culpa e inconformidade, pois antes de tomar qualquer providência, fosse qual fosse a decisão, o bom senso lhe dizia que precisava se alicerçar em fatos reais, comprováveis. E se aquela “cobra” estivesse mentindo? – perguntava-se, desacreditando a traição da “melhor amiga”, da qual a Babinha era refém. Jamais faria algo parecido com o Tim, seu “irmão” e companheiro de todas as horas.

No Santos Dumont, para o voo de quase todos o dias, nem teve cabeça para conversar com Rocha, o piloto do seu Citation Ten, um dos 10 jatinhos da holding Guimarães, todos fabricados pela Cessna, avaliado em 20 milhões de dólares. Sequer abrira a hoje finada "Gazeta Mercantil" daquela manhã para inteirar-se dos negócios.

Ao chegar ao alto de sua torre na Paulista, foi num abrir e fechar de portas, como um lobo de cauda eriçada a contrapor os tufos de carrapicho à beira do precipício, sem se ater a alguém ou ao cenário, até se deparar com ela, a delatora, sentada na sala de espera a bordo de um tailleur Chanel vintage verde-água, longas e torneadas panturrilhas descobertas, mais bronzeadas do que nunca. Percebia-se no ar que ela programara o passo a passo daquele encontro durante toda vida, como uma diretora teatral de musicais nas paragens da Time Square.

Mas como nem a traição que o vitimava lhe tirava o instinto de galanteador, Orlando sentiu no ar a sensualidade do cheiro de Arpège, mesmo perfume que exalava da Lily de Carvalho desde sempre, com o qual a “melhor amiga” de sua mulher banhara as saboneteiras. Ela foi rápida no gatilho, como faz a loba em pele de cordeira ao mirar a suculenta presa: levantou-se, apertou o botão do gravador com o dedo indicador, e com o polegar equilibrou o minúsculo aparelho na altura do ouvido do Orlando. Lá estava a voz da Babinha, melosa, luxuriante, “puta!”, ele exclamou, contando para a “melhor amiga” as histórias de suas tardes de sexo animal com a Atanael, o professor de tênis do Country.

Um ano depois, a coluna do Turco anunciava o segundo casamento de Orlando Guimarães. Agora, com a dona da camélia dos ouvidos mais matreiros e ambiciosos da chamada alta sociedade carioca. 

Foto: Country Club

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